domingo, 29 de outubro de 2017

Para conhecer o “niilismo humanista” de Camus

Sai a reedição, em português, de onze obras do escritor franco-argelino, Nobel de Literatura. Combatente do nazismo, e crítico da esquerda de seu tempo, ele acreditava que a tarefa de sua geração era salvar o mundo
Por Eduardo Nomomura, em Carta Capital

Sessenta anos atrás, um dos maiores escritores e romancistas do século XX traduzia um sentimento universal da época. “Cada geração é, sem dúvida, chamada a reformar o mundo. A minha sabe que não vai reformá-lo, mas sua tarefa talvez seja ainda maior. Consiste em evitar que o mundo se destrua”, proferiu em discurso o franco-argelino Albert Camus (1913-1960).

Naquele 10 de dezembro de 1957, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, o filósofo demarcou que um escritor jamais poderia estar à mercê daqueles que fazem a história, e sim a serviço daqueles que são afetados por ela. Em tempos de exacerbadas radicalizações políticas, o engajado e contestador Camus ressurge como alegoria perfeita para este tempo presente tão absurdo.

Cinco títulos de uma coleção de 11 obras de Camus acabam de ser relançados pela Editora Record – o restante dos títulos virá em 2018. O Estrangeiro, A Peste, O Homem Revoltado, A Queda e Diário de Viagem compõem um quadro amplo do pensamento filosófico camusiano. Estão presentes nesses cinco livros seus principais embates, como a confrontação do homem com a morte, a desolação da condição humana e a obstinada busca pela justiça social.

Filho de uma mãe que lavava roupas por dinheiro e de um pai que morreu na Primeira Guerra Mundial, quando ele tinha 1 ano, Camus cresceu contrariando o destino. A família pobre preferia que ele largasse os estudos para se tornar um tanoeiro, fabricante de tonéis de vinho, o trabalho do tio. Mas um professor primário e outro de filosofia, em épocas distintas, custearam os estudos daquele pied-noir, como era chamado o cidadão francês que vivia nos países ocupados no Norte da África.

Nascido em 1913, na Argélia, Camus foi membro do Partido Comunista, com o qual rompeu tempos depois, e ajudou a fundar o jornal Alger Républicain, onde denunciava a brutalidade dos franceses com os muçulmanos. As críticas o forçaram a se mudar para a França, em 1939, pouco antes da invasão alemã.

É nesse contexto que a filosofia camusiana é marcada pelo absurdo e pela revolta. O “homem absurdo” de Camus, mesmo sendo frágil, recusa-se a sucumbir ao destino de uma vida ordinária, sem frescor ou sentido.

Em O Estrangeiro, o mais popular dos romances do autor, esse sentimento é levado ao extremo com Meursault, o personagem que perde as referências e os anteparos emocionais a ponto de se tornar verdadeiramente livre – e, ironicamente, angustiado por se defrontar com a liberdade.
É uma das obras mais enigmáticas da literatura francesa, em que a narrativa abre indagações do começo (“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem”) ao fim da história (“Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio”).

Camus não via uma dicotomia entre o coração niilista do anti-herói Meursault, em O Estrangeiro, e os esforços do doutor-herói Rieux, o personagem-narrador de A Peste, que luta para salvar a vida dos moradores de Orã, na Argélia. Ambos tratavam do engajamento camusiano pela preservação da vida. O romance de 1947 é interpretado como uma grande metáfora relativa à ascensão do Terceiro Reich alemão.

A Peste é a história de um grupo de homens que se juntam para lutar contra uma epidemia que ameaça dizimar uma cidade. Esses personagens seriam os equivalentes, nos dias de hoje, ao exército de médicos cubanos que salvam vidas em outros países ou aos profissionais de saúde que se arriscaram na epidemia do vírus Ebola na África. Mas há ainda outros tipos de pragas que A Peste invoca, como a de uma sociedade capitalista que incita os homens a consumirem cada vez mais, mesmo não havendo recursos para todos.

É sintomático lembrar que o pensamento de Camus foi reduzido a uma tese de direita por ocasião da publicação de O Homem Revoltado, em 1951. Intelectuais como Jean-Paul Sartre acusavam-no de ser impreciso com a história e de não se engajar nas causas revolucionárias. “Você não sonhou em ‘fazer a História’, como diz Marx, mas impedi-la de se fazer”, criticou Sartre.

A obra de Camus é uma dura crítica à radicalização e à degeneração de revoltas, da Revolução Francesa, passando pelo nazismo, até as revoluções marxistas. Para ele, a justa contestação contra a condição humana miserável se esfarela quando os revolucionários são pautados pela perpetuação do poder.

À luz dos acontecimentos, Camus manteve-se coerente ao condenar enfaticamente as formas totalitárias de poder, sejam elas de direita, sejam de esquerda. “Sem ela (a liberdade), a justiça parece inconcebível para os rebeldes. Chega um tempo, contudo, em que a justiça exige a suspensão da liberdade. O terror, maior ou menor, vem então coroar a revolução”, escreveu.

A reação surge em A Queda, um romance de 1956 que foi visto pelos estudiosos como uma resposta às críticas que sofrera. Nele, Camus apresenta um narrador, autodenominado juiz-penitente, que se dispõe a fazer uma autocrítica dos erros (“O sentimento do direito, a satisfação de ter razão, a alegria de nos estimarmos a nós próprios são, meu caro senhor, impulsos poderosos para nos manter de pé ou nos fazer avançar”), provocando os outros a fazerem o mesmo (“Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todos os dias”).

Camus era dono de uma escrita sofisticada, ferina. Perdia amigos, mas não perdia a oportunidade da crítica. Dois anos após publicar A Peste, já aclamado, foi convidado a viajar para o Brasil, entre junho e agosto de 1949, onde conheceu do Rio de Janeiro a Pernambuco, de Porto Alegre a Iguape (texto abaixo).

Chamou São Paulo de “cidade estranha”, uma “Orã desmedida”. Espantou-se com o contraste entre o luxo dos palácios e os morros do Rio, nos quais “as mulheres vão buscar água no sopé dos morros”, entediou-se com um ritual de macumba, mas se encantou com o bumba meu boi. Conversou com Oswald de Andrade e gostou de Manuel Bandeira.

Nessa viagem, revelou estar com depressão e exprimiu vontade de morrer. A morte, um de seus temas recorrentes, veio três anos após o Nobel de Literatura, em 1960. Numa viagem a Paris, o carro em que ia de carona se espatifou contra uma árvore e Camus morreu às 13h55.

(fonte: http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/para-conhecer-o-niilismo-humanista-de-albert-camus/)

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