quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Entrevista com autor(a) 1 - Michelle Paranhos

Vamos dar início, hoje, a uma série de entrevistas com autores e autoras. Creio ser bem importante isso, para que possamos conhecer melhor aqueles que escrevem livros tão fascinantes para nosso deleite.
A primeira entrevistada é Michelle Paranhos. Vamos conhecê-la melhor?




1-Fale um pouco sobre sua trajetória de vida, antes de se dedicar à literatura.
R: Durante muito tempo meu sonho foi ser médica veterinária e eu tive a oportunidade de vivenciar essa experiência- cursei até metade do curso universitário. Porém, algo me dizia que aquilo não era meu caminho e, ainda durante o curso, comecei a dar aula de piano- sou formada em curso livre de música e piano clássico, correspondendo ao segundo grau técnico, pela escola E. E.M.Vila Lobos- e como professora particular para as crianças- também era formada no curso normal. Enfim, a ideia era complementar a mesada para me manter na faculdade. Bom, até que percebi que ensinar era meu dom, aquilo que me fazia sentir especial... Larguei tudo e fui tentar concurso público e passei! Lecionei por muito tempo para crianças, tanto de ensino fundamental quanto de música e quando me aposentei da educação aí sim, eu comecei a escrever para valer.

2- Quando descobriu sua “vocação” para escrever?
R: Não descobri... Fui induzida. Coagida, na verdade (risos). Eu sempre gostei das aulas de literatura no antigo segundo grau –hoje ensino médio- e teimosa que só, eu já tinha definido minha área de atuação em ciências biológicas ainda na infância... E não quis modificar. Bom, ainda no ensino médio eu fazia redações para colegas, fazia leituras para meus professores para definir qual livro extraclasse seria adotado nas aulas de literatura...  Quando finalmente me aposentei da sala de aula, fiz uma página no Facebook onde escrevia crônicas, comentários políticos, amenidades e até o dia a dia de minha filha com necessidades educacionais especiais- que virou a base para o meu livro coisas de Lorena. Meu marido insistiu e alguns fãs da página também - e hoje são leitores fiéis de meus livros!

3.            Fale um pouco sobre os livros que já publicou.
Ponto de Ressonância é um romance dramático que se passa na década de 1990 Duas jovens universitárias travam amizade, apoiando-se mutuamente nos desafios de morar em alojamento universitário, longe do mundo que conhecem. Se deparam com  drogas, violências e escolhas comuns da entrada ao mundo adulto.
Tendo como fio condutor uma história romântica, discute-se em Ponto de Ressonância  algumas questões filosóficas, limites da medicina e psicologia  e os estragos que as revelações de  segredos de família  costumam causar. Baseado em fatos reais. 



Mulato velho é um pequeno romance juvenil, onde um jovem menino, filho de um senhor do café, se torna amigo de um ex-quilombola descendente de escravos. A história se passa  no Rio de janeiro no século 19. Aventuras e muita amizade são a tônica e ainda dispõe de ilustrações originalmente feitas a nanquim.



Coisas de Lorena é um romance biográfico que narra as peripécias de uma garotinha muito especial e sua peculiar forma de enxergar o mundo. O livro conta com apêndices onde tem descrição do quadro médico apresentado, cartas de mães de pacientes cujos filhos têm situações semelhantes de saúde, álbum de fotos. E os desenhos nas aberturas de capítulos são ilustrados por ela - a Lorena - personagem título. Foi quase um trabalho jornalístico onde, por quatro anos, reuni as histórias vividas por ela, selecionei e guardei. 



Tsara – Ir até o fim do mundo e depois voltar  é a jornada da alma de uma mulher cujo principal dilema é viver entre o mundo que conhece ou decidir reviver as suas origens, há muito renegada.
 Nadja é um jovem e bela cigana que ao se envolver e engravidar de um não cigano e dele, foi expulsa do acampamento segundo regras do clã.
Ricardo, por sua vez, assim que passou os arroubos da paixão, percebeu que Nadja não servia aos seus propósitos, não constituindo um perfil adequado para mulher de um político em ascensão. Quando Mariana nasceu, as brigas do casal se intensificaram. Após uma violenta  briga , a mãe e a menina entram na caminhonete fugindo de Ricardo e é então quando se percebe que os freios do automóvel foram cortados, o que provocou um grave acidente. A mãe, antes de morrer, a fez prometer que jamais revelaria sua origem para sua proteção. A menina sobrevive e é adotada pelo médico que a resgatou. O tempo passa. Mariana é uma agente de turismo de eventos, forte e independente, que tem seu nome envolvido numa operação escusa da empresa onde trabalha ao mesmo tempo em que o destino se encarrega de colocá-la diante do universo cigano.
O livro levou um ano e meio para ficar pronto após extensa pesquisa.



4.            Existe um que você gosta mais? Por quê?
R: Um pouco complicado responder isso. Cada livro foi escrito em uma fase de minha vida e apresentou motivações diferentes para eu contar aquela história.
Coisas de Lorena é um livro muito especial por ser um romance biográfico e que conta a história de minha filha. Tornou-se um registro de seus primeiros anos. Suas alegrias  e descobertas.
Tsara, por seu lado, demandou uma grande fase de pesquisa- que é a fase que mais gosto da escrita- porque não sou cigana e tinha receio de, com minhas palavras, trazer algum desconforto para ciganos ao ler Tsara... Porque se tem algo que descobri ser verdade é que eles não admitem suas origens, e muitos são médicos, vendedores e outras profissões... Pessoas que jamais desconfiaríamos suas origens, por temerem  o preconceito dos Gadjins – o mesmo que não ciganos - caso descubram.  A propósito, Tsara significa Lar na língua cigana - o Romani.

5.  Comente sobre sua experiência com editoras. Ou você é adepta de produção independente?
R: Tive experiências muito frustrantes e ruins mesmo com editoras  e hoje prefiro traçar sozinha meu caminho. Se eu sonho com editora tradicional e tudo o que a cerca? Não sei se, na verdade, estaria disposta a pagar o preço de ter editora e alguém conduzindo cada passo meu, interferindo com opiniões, por exemplo, iria trazer.
 Ser independente é muito complicado, requer maturidade pessoal /emocional muito grande. Por outro lado cada pequena vitória é mérito exclusivo seu. E é complicado para o autor que está iniciando e buscando um estilo próprio ter que ficar dando ouvindo e saber quando acatar ou não a visão do editor. Editor não é um deus nem editora um passaporte para o sucesso. Caso fosse assim, todos os autores publicados em selos de editoras fariam sucesso e isso é impossível em qualquer lugar do mundo. Há peneiras no mercado, e isso vale para qualquer profissional. Justo ou não, esses filtros retém a muitos pelos mais variados motivos. Não há lugar para todos,  a competição não é justa, é acirrada e ter “padrinho” pode te colocar num lugar X, mas não te manterá  nele...Isso será  mérito seu. Simples assim.

6.            Nas entrevistas e bate-papos que acompanhamos pela internet, verificamos que existe uma preocupação muito grande com a revisão. Há livros sendo publicados sem revisão de espécie alguma, nem a técnica (própria da editora) nem a ortográfica/gramatical. O que você pode nos dizer a respeito? No seu caso particular, você contrata um (a) revisor(a)? Ou a editora se encarrega disso?
R: As editoras muitas vezes dizem fazer revisão técnica, mas eu não apostaria todas as minhas fichas nisso. Já me deparei  com muitos livros editoriados  inclusive por editoras tradicionais  com erro de revisão ou diagramação. E a editora não é responsável pela apenas pela revisão! A Editora coloca o nome dela até na escolha das cores usadas na ilustração de capa! Tudo precisa passar pelo crivo da editora.
 Por outro lado, sabemos que a editora terceiriza serviços, nem todos os funcionários fazem parte do quadro dela e não é incomum você encontrar revisores e outros profissionais fazendo free lancer. O que recebem de pagamento não justifica exclusividade. Se souber procurar, é possível conseguir um bom profissional.
Entretanto, qualquer ser humano é falho. Todos nós somos passíveis de erro. Como resenhista e analista critica sou mais benevolente com um erro de digitação ou semântica do que com erros de ambientação como vemos a torto e a direito. Histórias ambientadas em outros países com erros grotescos da geografia local ou contexto politico.  Certa vez recebi um livro para resenhar cujo tema era uma mulher forte e independente conduzindo uma escavação arqueológica e um sheik árabe se apaixonou por ela e a quis para ser sua (única) mulher... no século 18. Não passei da sinopse, é claro. (risos). 

7.  Outro ponto chave para os novos autores é a divulgação de suas obras. Pode nos dizer de sua experiência a respeito?
R: A divulgação é um aspecto importantíssimo. Sem divulgar seus livros você não vende. Porém, uma coisa que aborrece muitos autores é que a taxa de conversão entre divulgação e visualização não é 20%. Ou seja, se você divulgar para 100 pessoas com sorte vinte pessoas vão realmente  ver e  se interessar. Mas isso não significa vendas e comprar livros é outro assunto ainda mais espinhoso!
Há certa romantização entre escritores – especialmente os mais jovens -  que vale tudo para fazer sua história ser lida, até a gratuidade. Não concordo. Esse estilo de “escritor voluntário“ nunca permitirá  que exista a profissionalização do escritor, que permanecerá fazendo da escrita um hobby.
 Para um trabalho valer a pena precisa no mínimo retroalimentar a cadeia produtiva. Isto é, obter lucro ao vender um produto – livro - que deverá ser investido em meu  próximo produto. Se eu não consigo vender o mínimo para cobrir custos e conseguir  lucro terei que tirar o dinheiro necessário para cobrir gastos para pagar aos profissionais do livro ser produzido (editores, capistas ou editora) do orçamento doméstico. Se consegue  até fazer isso por algum tempo, mas logo a situação tornará  insustentável.E teremos um filtro atuando aí: autores publicando um, dois livros, e desistindo da profissão.
Ah! Mas tem as editoras tradicionais, não é? É. E é exatamente essa aposta que elas não fazem no pequeno autor... De que seu livro irá gerar lucro. E por isso não contratam autores sem grande visibilidade para seu quadro de autores.
Vamos ser sinceros... Vivemos numa sociedade capitalista, gostando ou não. E isso conta muito.

8.            Bienais e feiras de livros – são importantes para os novos autores?
R: Sim, para ajudar a formar o marketing pessoal e profissional do autor. Porém, vejo um trabalho mal conduzido nesse meio, onde a prioridade está na cultura de exposição da imagem do autor e não do conteúdo da obra. Até um livro com erros pode sofrer nova revisão e ser alterado. Creio, porém, que é  a mensagem transmitida ao leitor que torne um livro memorável. Espero que um dia eu possa ser conhecida através das obras que escrevi. Isso sim, me tornará imortal.

9.            Ouve-se muitos comentários depreciativos sobre a literatura brasileira contemporânea. É comum ouvir-se algo do tipo “não gosto, não leio autores nacionais”. Em seu entendimento o que explicaria tal tipo de assertiva?
R:  Recentemente um adolescente me consultou  sobre que  editora publicar seu livro. Recebera uma proposta para publicar seu livro de 60 páginas, um conto. Eu perguntei que história tinha escrito, pensando adequar a história aos gêneros publicados pelas editoras. Então ele me respondeu que ainda não tinha escrito a história ainda e que faria um livro de 60 páginas. Qual sua opinião se eu basear minha história no romance entre João e Maria? Acha que fará sucesso?
 Eu então questionei: Você leu  Irmãos Grimm? A história original onde João e Maria eram irmãos? Ou só leu adaptações e versões?
Ele respondeu “Ok”. E o assunto terminou aí.
Creio que essa história ilustra bem o que acontece atualmente.
Os passos de se publicar um livro estão sendo modificados.
Os autores não possuem bagagem literária, não conhecem técnicas literárias, e pouco se importam na maturação do texto. Querem publicar fanfics (historietas escritas por fãs de determinada história, geralmente séries e filmes de sucesso). E aproveitar o modismo que se transformou a literatura publicando o quanto antes... Qualquer coisa, para ter seu nome estampado na capa do livro. A moda agora é escrever.
Veja, esse boom da literatura me propiciou um acesso mais fácil ao meio, porque hoje é mais fácil descobrir profissionais do livro e editoras como não se via há dez anos, quando o mercado literário era muito restrito.
Comecei a escrever muito tarde, aos 40 anos. Essa democratização do mundo literário me ofereceu esse acesso assim como a outros autores, adolescentes ou mais velhos. Poe esse lado, foi muito bom.
Entretanto, essa enxurrada de livros de qualidade duvidosa também aumentou a seleção criteriosa dos pouquíssimos leitores, categoria que não sofreu aumento em seu número na mesma proporção. E como toda situação onde há mais oferta que procura  está fadada ao caos. Aí surgem retrocessos como “leitor sensível” instituído por editoras, servindo de censura velada, e outras formas de ditar para o autor como escrever de forma a  se adequar às exigências dos  leitores. E a literatura assim perdeu sua função de transformadora social e se rendeu ao status quo, tornando-se obsoleta antes mesmo de deixar a  gráfica.

10.          A partir de sua experiência pessoal, o que poderia dizer para aqueles e aquelas que pretendem publicar livros?
R: Persistência para não desistir. Parece redundância...mas não é.  Tornar-se conhecido leva tempo e investimento tanto financeiro quanto emocional. Mantenha o foco em seu objetivo e cuide da qualidade do que escreve. Um livro é um registro de seu nome que não será apagado. A palavra escrita tem a força de  lei- e isso não é uma máxima antiquada. Um livro é um legado e é assim que o autor será lembrado... Pense nisso.

2 comentários:

  1. O investimento emocional é muito maior que o financeiro para quem quer ser escritor. O emocional.
    Abraços para Michelle. Ótima entrevista.

    ResponderExcluir
  2. Parabéns pela entrevista, Michelle!
    Parabéns tb ao Ricardo que a conduziu tão bem em seu blog!
    Admiro a escrita dos dois!

    ResponderExcluir