sábado, 26 de novembro de 2016

Apresentando novos(as) escritores(as) brasileiros(as)



Tenho o prazer de apresentar hoje a escritora Luciana Hidalgo.

Luciana Hidalgo é jornalista, escritora e doutora em Literatura Comparada (Uerj). Antes do romance O passeador, publicou Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto (ed. Rocco, 1996, 2011) e Literatura da urgência – Lima Barreto no domínio da loucura (ed. Annablume), pelos quais ganhou dois prêmios Jabuti. Trabalhou nas principais redações de jornais cariocas, em cadernos culturais e literários, como o Prosa & Verso do jornal O Globo. É também doutora em Literatura Comparada (Uerj), com pós-doutorado na Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris 3), na França, onde morou durante vários anos.

Vejamos algo a respeito de seus livros:


O passeador


Em seu primeiro livro de ficção, O passeador, a autora segue a linha dos autores que viram o Rio de Janeiro como um grande espaço para o passeio e a observação da sociedade, tendo como protagonista ninguém menos que Lima Barreto, o autor do clássico da literatura brasileira Triste fim de Policarpo Quaresma.
Inspirada por obras como A alma encantadora das ruas, de João do Rio, e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, do próprio Lima Barreto, a autora conduz o leitor por um passeio pelo Rio de Janeiro do “bota abaixo”, como ficou conhecida a reforma urbana empreendida pelo prefeito Pereira Passos no início do século XX, revisitando um período importante da história da cidade a partir do ponto de vista de um de seus maiores observadores, e por meio de um enredo ficcional costurado à perfeição.
No livro, escrito com o apoio da Bolsa Funarte de Criação Literária, Afonso (primeiro nome de Lima Barreto) desfila seu senso crítico sobre a completa transformação da sua cidade, que atropela as moradias dos pobres para erguer uma “Paris das Américas”, asséptica, aos moldes da reforma Haussmann na capital francesa. “Quanto mais percorre essa cidade em fendas, devassada em seus avessos, mais amaldiçoa a reforma urbana”, escreve a autora sobre um desalentado Afonso, a arrastar os pés pela terra seca de onde vai se erguer a Avenida Central, no centro do Rio de Janeiro, a futura Avenida Rio Branco, que abre e fecha o livro.
Na trama, que Luciana desenvolve em meio a uma minuciosa pesquisa sobre a época em que o Rio de Janeiro ganhava os contornos que seriam a sua marca no século XX, ela inclui um sebo na Rua Gonçalves Dias, frequentado avidamente pelo tímido Afonso, mantido por Tiago, um português rabugento, e Sofia, a discreta funcionária apaixonada por livros e curiosa em relação ao comportamento de Afonso. Ela o segue pela cidade em metamorfose, é uma sombra, uma personagem que aos poucos se concretiza, passeando com ele na Rua do Ouvidor, no Passeio Público, ou em meio às demolições.
 O passeador também mostra, com riqueza de detalhes, a transição da iluminação feita à base de lampião para a iluminação a gás, mais um elemento da modernidade atropelando os escombros de uma cidade que ia perdendo seus ares provincianos. O passeador Afonso percebe com tristeza essa mudança brusca e se sente deslocado, “desterrado em si mesmo”. Luciana faz seu protagonista caminhar por ruas extintas, imagens que se perderam, personagens que se tornaram folclóricos, como o acendedor de lampião, conhecido como “profeta”.
 Afonso é pequeno funcionário público, mulato num país que recentemente abolira a escravidão, mora no distante subúrbio e tem um pai que começa a sofrer da loucura. Acima de tudo e todos os problemas, no entanto, está a paixão pela literatura, que supera o preconceito, a discriminação, a falta de dinheiro e, com o tempo, a relação íntima com a bebida. Um “flâneur engolido pelas ruas”, assim ele se sente.
A ficção permite à autora reconstituir um dos períodos culturais mais efervescentes da história carioca, suas modas, costumes, salões literários, pelos olhos do jovem Afonso. Em busca de sua literatura, o protagonista não só se mistura aos tipos da cidade, mas inventa, ele próprio, personagens e histórias, biografias de pessoas invisíveis.
Ao conjugar dados reais e ficcionais, Luciana Hidalgo esquadrinha, para além do cenário do Rio antigo, os dilemas do escritor no fazer literário, a solidão, o convívio com personagens impalpáveis, os circuitos secretos da criação à beira da vertigem. Numa prosa poética, delicada, fluida, a autora passeia com seu personagem em suas idas e vindas, entre a cidade concreta e a imaginária, entre ficção e História.

Arthur Bispo do Rosario - O senhor do labirinto

  

Trancado num quarto-forte da então Colônia Juliano Moreira, hospício carioca, Arthur Bispo do Rosario criou, ao longo de 50 anos, um mundo novo. Miniaturas, mantos, estandartes brotaram de suas mãos, ganharam cor, deram um novo sentido, uma outra estética à sucata do  asilo psiquiátrico. Para Bispo, tratava-se de uma obra ditada por anjos, para ser apresentada a Deus no Juízo Final. Para vários críticos, no entanto, era pura arte.
Em 1989, o paciente – diagnosticado pela psiquiatria como esquizofrênico-paranoico –  morreu e deu passagem a um artista plástico consagrado, devidamente inserido no circuito da arte contemporânea. Em 1995, seus bordados, assemblages e estandartes representaram o Brasil na Bienal de Veneza e até hoje são expostos nos mais prestigiosos museus internacionais.
Em Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto, que ganha nova edição, revista e ampliada, Luciana Hidalgo se equilibra entre o delírio e a realidade para desvendar uma das personalidades mais impressionantes do país. Premiado com o Jabuti na categoria reportagem em 1997, o livro tornou-se referência ao abordar a delicada questão do tratamento de usuários de serviços de saúde mental e a relação íntima entre loucura e criação artística, a partir da vida e obra de Bispo do Rosario.
Com uma narrativa fluente, herdada da carreira jornalística da autora, e um enriquecedor encarte de fotografias do artista e de suas obras, O senhor do labirinto foi a primeira biografia de Bispo do Rosario e mantém-se como uma das principais fontes de pesquisa sobre esse sergipano descendente de escravos. O livro foi adaptado para o cinema e deu origem ao filme homônimo de Geraldo Motta (codireção de Gisela de Mello), com roteiro da autora e do diretor. Vencedor do prêmio de melhor filme pelo voto popular no Festival do Rio em 2010, o longa-metragem tem lançamento previsto para 2012.

Rio – Paris – Rio


Maria e Arthur se encontram em Paris no início de 1968. Ela estuda filosofia na Sorbonne, ele é poeta e artista de rua. Juntos vivem os excessos daqueles anos de revoluções e utopias e fogem da ditadura no Brasil, divididos entre o deslumbramento pelo que o Velho Mundo lhes oferece e a permanente sensação de que são intrusos na grande festa que é Paris. Em seu segundo romance, a autora narra uma história de amor, sonhos e desilusões, tendo como pano de fundo um período conturbado da história, tanto na Europa quanto no Brasil, com uma prosa poética e potente.
Maria passa o dia lendo Descartes e tenta seguir à risca as orientações do professor de filosofia sobre métodos de simetria e perfeição na condução de sua vida. Arthur é um libertário, idealista e sonhador, inimigo da rotina e artista nato. A realidade do Brasil, imerso numa ditadura violenta, é a sombra que permeia a relação dos dois, e também o apartamento ao lado, onde outro brasileiro, conhecido como “Marechal”, reúne estrangeiros que passam pelo mesmo problema em seus países e articulam um modo de resistir ao poder brutal das armas.
Embora o livro se passe em 1968, ano de transformações culturais e comportamentais no mundo todo, em especial na França, seu tema soa bem atual, não apenas pelo avanço de pensamentos reacionários por toda a parte, mas também devido à importante questão dos refugiados que entram na Europa todos os dias e já provocam reações pouco amistosas de boa parte da população e dos políticos. Maria, ao refletir sobre o afrancesamento de nomes próprios estrangeiros, uma forma de torná-los mais familiares e menos ameaçadores, entende bem a sua situação e se angustia com isso. “O próprio termo francês étranger, usado para o estrangeiro, significa também estranho, aquele que destoa do meio. Quando ela entendeu isso, entendeu tudo. Todo estrangeiro é um intruso, ela sabe.”
Os personagens do romance flanam por uma Paris que Luciana conhece muito bem. Eles sabem, pelo menos Maria tem plena consciência disso, que naquela cidade, naquele país, eles não são anfitriões e sim convidados, e à medida que vão ouvindo relatos de torturas e mortes no seu país natal, à medida que Maria sente o seu passado assombrá-la em pesadelos, a sensação de não identificação vai se intensificando, como o “estrangeiro” de Camus. Em meio a isso, ela experimenta LSD, entra, sem querer, na manifestação dos estudantes parisienses nos bulevares (que ficou conhecida como Maio de 68), e se lembra de seu próprio país. Arthur está longe, em mais uma de suas peregrinações por qualquer canto onde se sinta bem, e ela, desamparada, aguarda o seu regresso enquanto sua lembrança se faz presença inevitável, por exemplo, nas conversas com Luc, herdeiro de um esnobismo de aristocratas do passado que faz Maria perceber, exatamente, como esse Velho Mundo está proibido para ela.
Luciana Hidalgo reforça, neste livro, outra característica sua, bem presente nas obras anteriores: a identificação com aqueles que vivem à margem, os que se opõem ao sistema e não se permitem levar a vida certinha que lhes oferecem, os que lutam contra injustiças e pagam com a própria vida, os chamados loucos, com suas realidades essencialmente próprias, personagens sempre capazes de proporcionar uma rica literatura. 
Nas digressões filosóficas que Luciana vai destilando através de sua protagonista, encontramos reflexões de uma geração aturdida com acontecimentos políticos que fogem ao seu controle e deságuam em “guerrilhas, cardinales, caras de presidentes”, como na música Alegria, Alegria, de Caetano Veloso (que Maria adora ouvir na vitrola de seu quartinho), ou nas barricadas erguidas pelos estudantes de Paris. Em meio a tanta turbulência, resta a utopia de Arthur, que se senta na rua com a máquina de escrever e produz poemas pré-concebidos para qualquer assunto. Ao lado, a placa diz: “o artista está na rua.”

 Gostaram? Eu achei maravilhoso... e já estou encomendando o Rio-Paris-Rio, sabem a razão, não sabem? A história tem a ver com a do meu romance... 
Mas os outros também despertaram meu interesse e serão adquiridos posteriormente.

Onde encontrar? Nos sites das livrarias Cultura e Travessa, com certeza.
Bom proveito!

Um comentário:

  1. Ao ler a resenha do Rio-Paris-Rio, pensei, também, em O Amor nos Tempos do AI-5.
    Pareceu-me que a autora aborda muito a questão humana à margem da sociedade. Em "Artur Bispo do Rosário-O senhor do Labirinto" há a biografia de um homem "condenado" através de um diagnóstico psiquiátrico, que viveu nos porões da loucura de um hospital, mas que deixou um legado de criação artística maravilhoso.
    Parabéns à Luciana Hidalgo.
    E sucesso!

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